• Zelma

Sonhos de uma noite de quarentena


Pira de quarentena. 


"Acordei com ela me chamando e me sacudindo. 


- Vamos, levanta. Não aguento mais. Quando você me comprou prometeu viagens e mais viagens. Nacionais e internacionais. Curtas e longas. E agora estou aqui nesse armário há mais de oito meses, faz sentido? E...


Falava sem parar e eu ainda acordando não entendia nada.

Ela, brava, irônica,  irada.


- Calma,  eu disse.

- Calma o quê, pensa o quê? Desaforo!


Senti que a situação ia sair do controle. 


- Sabe o quê? Disse ela. Vou sozinha mesmo, vazia mesmo. Não sei para onde nem sei se volto.


E saiu rodando de um jeito rebolado e provocador. 

Desceu as escadas, tomou a rua e se foi.


Quando cheguei na porta da cozinha ela já tinha sumido de vista.

Eu, ainda de pijama,  chocada e desorientada.


- Dane-se, pensei. Não é minha culpa. Esse vírus desgraçado me impede de viajar. Não tenho que dar explicações para uma mala desvairada. Que se vá.  Compro outra.


Passados os minutos de desabafo veio uma vontade de resgatar a bendita. 

Afinal já tínhamos muitas histórias. Curtimos viagens pelo mundo afora. Nem caberia contar todas as histórias. 


Mas uma delas me toca.


Chegando em Guarulhos ela não estava na esteira. Desespero.  Logo minha mala preferida. 

Chegou uma semana depois e não soube (ou não quis) contar o que tinha acontecido. 

Tudo bem. Geniosa e rebelde.  Cheia de mistérios.


Fui atrás. 


Cheguei na esquina e não sabia se virava à direita ou à esquerda. 

Peguei à esquerda,  claro! Acertei.


Lá estava ela na beira do lago pronta para se jogar.

Corri.


- Tudo bem.  Calma. Vamos não seja geniosa.

- Não sou geniosa. Só quero cumprir meu destino. Fui feita para rodar. Não vê?


E, nesse estado de tensão,  tentava se jogar.

Me agarrei a ela e acordei agarrada ao travesseiro assustada e desejosa de viajar.


-

Sonho/Texto de Zelma Torres Cruz

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