• Vicente

Fui a Teresina com Caetano Veloso

Atualizado: 15 de Ago de 2020


Eu tenho o privilégio de conhecer quase todos os estados do Brasil. Aliás, melhor dizer que já estive em 24 dos 27 estados brasileiros - e também no Distrito Federal. Como me disse certa vez um motorista: “Eu trabalho há mais de 50 anos de táxi e não conheço toda São Paulo. Toda vez que passo em um lugar a cidade mudou e eu mudei também”. Falou assim, me fazendo lembrar da frase de Heráclito:


Ninguém pode entrar duas vezes no mesmo rio, pois quando nele se entra novamente, não se encontra as mesmas águas, e o próprio ser já se modificou”.

Eu fico meio ressabiado quando alguém diz que conheceu tal lugar, mas tudo bem, é coisa minha. Eu costumo dizer que estive lá. Viver o lugar é diferente. E um lugar que ainda não pude conhecer é Teresina, no Piauí. Mas Caetano Veloso me levou até lá.


Caetano fez aniversário no dia 07 de agosto, com live e tudo. Você pode não gostar de Caetano, mas não tem como ignorá-lo: faz parte da cultura brasileira. Suas músicas nos permitem viajar a várias cidades, mas a cidade de Teresina - a "Cajuína" - me emociona bastante.

Foto: Vinicius Xavier

E eu não sei você, mas eu ando bastante abalado com tantas mortes acontecendo no Brasil. Então o assunto morte, o assunto suicídio e as questões sobre um estado suicidário estão povoando a minha cabeça. E o que fazer diante disso?


A vontade é sair correndo, mas não dá - #fiqueemcasa. Viajar nesse momento eu não posso. Mas podemos viajar nas músicas, imagens, poesias dos nossos artistas.


Nietsche disse certa vez que “toda a arte e toda a filosofia podem ser consideradas como remédios da vida”. E Ferreira Gullar já emendou que “ A arte existe porque a vida não basta”.




Semana passada, o Facebook me lembrou de uma postagem antiga do amigo Silas de Paula, professor, fotógrafo, artista - que mora em Fortaleza - que falava exatamente da música e resolvi compartilhar aqui com vocês.



Com o mal-estar brasileiro estamos nos afastando (inclusive) da poesia!

Sempre gostei muito da música Cajuína, de Caetano Veloso e, como toda percepção é paradoxal, eu viajava nela independente das intenções do autor - na arte nada é dado de graça e um pouco de mistério sempre é necessário. Mas a história da música, contada por ele num programa televisivo, mudou minha percepção e fiquei profundamente emocionado.

Pra quem não sabia (como eu), depois do suicídio de Torquato Neto ele foi a Teresina visitar a família. Conversando com o pai do amigo, enquanto tomavam cajuína, caiu num choro convulsivo. O homem então sai, retorna e lhe entrega uma rosa pequenina.

Indescritível (ou não, como diria Caetano) o afeto. E desse momento extrai um libelo contra o próprio desespero, uma homenagem maravilhosa ao pai de Torquato Neto e uma profunda reflexão.


"Existirmos: a que será que se destina?

Pois quando tu me deste a rosa pequenina

Vi que és um homem lindo e que se acaso a sina

Do menino infeliz não se nos ilumina

Tampouco turva-se a lágrima nordestina

Apenas a matéria vida era tão fina

E éramos olharmo-nos intacta retina

A cajuína cristalina em Teresina."




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A fotografia deste post é do excelente artista Vinicius Xavier


O vídeo que o amigo Silas cita é da cineasta Petra Costa onde, aos 15 anos participando do Programa Livre de Serginho Groisman, pergunta a Caetano o significado da letra da música. Recomendo. Clica aqui e assista




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